Para Ana Roseno
Isto não é um conto, talvez uma crônica? Acredito tratar-se mais de uma reflexão, redobrada do desejo de não ser piegas, eu espero. Também não há a pretensão de criar admiradores ou justificativas para quaisquer fatos, posturas, uma vez que a nossa presença no mundo é tão curta, poderia sugerir isso; não quero criar nada. Entretanto, não poderia deixar de fazê-la, por várias razões, mais pessoais do que coletivas. Há quase onze anos leciono em cursinhos e colégios particulares do Estado de São Paulo. Pode parecer pouco frente a tantos docentes que estão por aí nas salas de aulas há 30 ou mais anos. Acontece que tenho pouco de idade o que eles têm de docência, então, considerando o tempo de vida, é bastante. Que fique claro: nunca almejei ser professora. Verdade. Tive outra profissão antes, (comecei a trabalhar muito cedo) e acreditem ingressei no curso de Letras, porque sonhava em ser uma grande jornalista, trabalhar em revistas famosas, jornais de grande circulação ou uma escritora de potencial.Este acho que foi o único sonho que tive na vida. Só que percebi, já no primeiro dia do curso, que acabaria numa sala de aula. O que de fato nunca estivera nas minhas poucas pretensões. Acredite: nunca tive grandes pretensões, exceto ganhar dinheiro, mudar de vida, e escrever. Venho de uma família muito pobre, embora a percepção disto somente viera anos mais tarde. Num determinado momento, portanto, comecei a procurar trabalho em outra área, e confesso que gastei muita sola de sapato. Não conseguia nada daquilo do qual pretendera. Não passava em nenhuma entrevista. Hoje sei que jamais teria o perfil de quem fica organizando livros em uma biblioteca ou preenchendo papeladas infinitas. Mas acreditava que fosse conseguir alguma coisa em um jornal ou quem sabe, numa empresa mesmo como revisora ou coisa do gênero. Acontece que nada dava certo. E isto me deprimiu muito e me desanimou também. Até que um dia, vi um anúncio no jornal: precisa-se de professor de língua portuguesa. Como era muito próximo do local onde trabalhava, decidi dar uma passada e, quem sabe deixar o currículo. Fui até lá, acabei aguardando para fazer a entrevista. A dona do colégio perguntou sobre minha experiência: “nenhuma”. Ela me encarou com aqueles olhos inquisidores que jamais esquecerei em minha vida. Respondeu-me que não poderia me colocar numa sala de aula, sem experiência e com aquela cara que mais parecia de aluna. Eles iriam me engolir, disse ela.
Eu já demonstrava certa impaciência com tantas tentativas que não deram certo, e de verdade, pouco me importava naquele momento o que ela pensaria a meu respeito. Respondi que se ninguém me desse a primeira oportunidade, nunca teria experiência mesmo, ao mesmo tempo em que me levantava para ir embora. Maria do Carmo (era o nome da diretora), tirou os óculos grandes e fora de moda, arrumou os cabelos cor de palha, e bem alinhados num Chanel clássico, mas antigo, dedilhou os dedos sobre a mesa e disse-me que eu era bem “petulante”. Saí, fui embora, sem deixar ali nenhum resquício de oportunidade. Foi então, que para aminha surpresa, ela mesma telefonou e disse: “quer começar amanhã?”
Foi uma surpresa, e ao mesmo tempo um longo desafio o qual sugeria uma grande mudança, que eu almejava há tempos, contudo não imaginaria ser um caminho tão sinuoso e dolorido.
A vida é assim.
…
Reorganizei minha vida, transferi o curso para o período matutino, combinei com as clientes que as atenderia em horários especiais e dias alternados.
Se não desse certo, teria minha vida ainda inteira.
No dia combinado estava lá, um pouco antes do horário para conhecer as pessoas certas que me auxiliariam e me ambientar. Isto é muito importante, eu pensei, me ambientar. Mas não esqueça: estava realmente sem nenhuma expectativa. Acontece que quando entrei na sala de aula, ainda fazia, senti o que os americanos chamam de “borboletas no estômago”; não somos imunes.
Um jovem aluno entrou e sem saber que era eu a nova professora fez até uma piadinha”quer sentar aqui atrás?” “Não, vou ficar aqui na frente mesmo.”
Os estudantes daquela turma foram entrando, sentando-se. Fiz as apresentações de costume, eles olhavam e entreolhavam-se desconfiados, porém me mantive rígida. De repente um aluno ergueu a mão e perguntou: “quantos anos você tem?” – Sabia que a pergunta inclusive tinha demorado a aparecer… Respondi que usava formol todas as noites. Riram-se da brincadeira e a aula transcorreu sem nenhuma interferência.
Até então sentia um vazio enorme dentro de mim, e não conseguia relacioná-lo com a falta de prazer na realização das pequenas ações cotidianas.
Mas quando saí do colégio, naquela noite, senti como se o mar tivesse adentrado o vão que existia em mim e me preenchido toda.
(…)
Sabe, nesses onze anos, tive muitos momentos de vazio, novamente. Angústia, dúvidas. A única certeza que sempre prevaleceu é a de que se um aluno entender o trabalho do professor, valeu a pena.
O valor de nossas ações estão na aceitação de nossas fraquezas. “Somos fortes, quando somos fracos”; sou fraca tantas vezes…Quando perco a paciência, quando fico brava porque um aluno não consegue entender que ele não sabe ou não quer saber que não sabe, fico desapontada e triste, quando ninguém quer se superar…
Mas quando li sua carta, confesso que me emocionei. Pois sei que foi mais do que aprender a resenhar. E pra mim, é isto o que vale. Enquanto viver, lembrarei- me da aluna a qual passou noites lendo 1984, e do dia no qual ela não tirou dez, mas aprendeu a se superar.