Hoje foi um dia muito curioso. É. Posso dizer que se não alegre ou triste, curioso. Andava apressada, absorvida pela mecanização de meus passos e a rapidez de meus pensamentos, quando um olhar cruzou o meu e disse com significativa surpresa: “Quanto tempo! Como é bom vê-la”. De imediato, senti certo constrangimento. Vieram perguntas sobre como eu estava, quanto tempo que não nos víamos e o que eu estava fazendo. Achei de antemão, que se tratava de uma ex-colega de trabalho, só podia ser, para me parar na rua, naquela região, onde sempre trabalhei. Posso realmente me re-encontrar com qualquer pessoa que um dia tenha cruzado meu caminho ou que por outro motivo, eu tenha lhe pertencido. Mas ainda estava entre a tentativa de me lembrar com quem eu falava e o desejo de correr para o meu compromisso, que, aliás, eu já estava atrasada. Sempre me atraso. Estava convicta de que não a conhecia. Era jovem, assim como eu, vestia-se razoavelmente, e falava um português correto. Foi então que veio a pergunta: “E sua mãe e sua irmã, como vão?”. Não se tratava de uma ex-colega de trabalho. Não costumo falar de minha vida no trabalho. E não conseguia me lembrar daquela feição que parecia tão emocionada ao rever alguém que soava parecer tão familiar. Procurei em minhas lembranças imagens com as quais pudesse associar aquela figura, feliz, a minha frente. Ela nomeava pessoas, cujos destinos tinham cruzado nossas vidas. De repente me concentrei em seus olhos, como se assim eu pudesse captar alguma coisa que fosse capaz de me fazer recordar de onde vinha aquela figura e me tirar de um total constrangimento, o qual não soube se ela pôde percebê-lo, e, segunda ela, eu fazia parte do seu passado! Quase não a ouvia. E foi desse modo que, olhei bem profundamente e pude perceber, que ela usava lentes de contato. A figura usava lentes de contato! Um de seus olhos me parecera tão familiar.
Ela!
A menina do olho perfurado por um amigo (nosso!).
Por alguns instantes realmente não a ouvi. Somente me lembrei do dia em que, ela, sentada à sua carteira, virou-se abruptamente e, o nosso amigo, que se sentava atrás dela, segurava uma tesoura, ponte-aguda, aberta e, a jovem, sem querer teve o olho direito perfurado.
Ficara cega de um olho.
Lembro-me agora bem melhor do que, segundos antes, nunca seria capaz de me lembrar: de alguma maneira, tínhamos algum vínculo. Sua mãe, tecia malhas de lã, ela tinha uma máquina semi – profissional, que ficava na garagem da casa deles. A mãe trabalhava muito, para ajudar a sustentar a casa e a criar os filhos, cinco. O pai era um caminhoneiro do tipo… , grosso, e que num momento como em tantos outros, fora pego agarrado a uma mulher de quinta, dentro da boleia de seu caminhão, a esquina da rua em que morava com a esposa e os filhos. À época, morávamos num bairro de uma das periferias de São Paulo; não éramos ainda pertencentes à classe média que emergia. Haja vista, nossos pais não tivessem formação escolar básica, eram eles os dissidentes dos trabalhadores das fábricas erguidas no período do milagre econômico. O meu, por exemplo, “operava máquina”; assim como tantos outros, que se orgulhavam dos ofícios que aprenderam com outros tantos que se orgulhavam de ter um ofício sem ter formação nenhuma. E assim todos íamos vivendo. Aos dez, onze anos, época na qual não temos muita percepção de certos detalhes, que vão nos compondo ou re-compondo o nosso redor. Aparentemente, a única percepção que temos da vida é simplesmente o redor. Como ele se forma, o que provoca, talvez nem mais tarde muitos de nós conseguiram compreender. Acontece que sempre tive o meu ar superior de não pertencer àquela realidade que me compunha e que me formava. Não com as clarezas que temos com o passar dos anos, mas com a arrogância inata de quem já aos 10, 11 anos, acredita não dever se misturar com àqueles que não pertencem aos grupos mais populares, ou mais “interessantes”. Curioso, uma vez que eu freqüentei tantas vezes a sua casa…. O que nunca também sugeriu algum tipo de intimidade especial. Estudávamos na mesma escola, mas nos encontramos na mesma turma, quando ingressamos no ginásio, e honestamente, continuamos a não ter intimidade. Não que eu não quisesse, mas não interessava. Achava alguns de meus companheiros de escola totalmente desinteressantes e pensava que o futuro deles não seria tão mais brilhante que o meu. Queria estar entre os populares, pelo bem ou pelo mal. A mulher que agora tagarelava ali na minha frente, à época, não era popular. Tinha sido para mim, de algum modo, menos que desinteressante. Na verdade, some resta um amigo daquela época, e nem sei posso chamá-lo assim, visto que temos pouco contato. Aqueles que não caíram no esquecimento, foram vítimas das próprias escolhas. Percebi naquela hora que a imagem ali prostrada, tinha sido vítima do esquecimento.
Meu esquecimento.
Algumas coisas nos parecem ser dotadas de um desejo de serem destinadas ao porão da memória.
A criatura falava com devoção sobre nossos amigos, que tiveram filhos, casaram-se, trabalham, estão bem. Contudo, sabia que não eram meus.
Senti-me na obrigação de lhe retribuir ao menos um interesse, sobre sua vida, disse-lhe que anotasse meu endereço eletrônico, para que pudéssemos nos contatar. Ela tirou um pequeno acessório do bolso, perguntei-lhe no que trabalhava, disse-me que na área de tecnologia. “Tecnologia?! Que interessante. Casou-se?”. Respondeu-me que o trabalho não permitia, viajava muito. “Quem sabe um dia”. Falou-me rapidamente da família, pois, educadamente, obriguei-me a perguntar da mãe, que eu soubera ter sido uma mulher tão sofrida. Olhei no relógio, tinha um compromisso, precisava correr. Continuava sem nenhum interesse naquela conversa. Disse a ela que me enviasse uma mensagem. Mandaria fotos. As pessoas gostam muito de mandar fotos. Assim parece mais razoável, mantemos contato, mesmo que à distância. Disse um até logo, que fora gentilmente retribuído. Virei – me, sai andando com meus passos de sempre, como se nada tivesse se alterado na programação daquele dia.
Continua…
